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Conheça um pouco mais sobre a nossa mestra Thaís Berdusco!

  • Foto do escritor: Ponto de Vista
    Ponto de Vista
  • 2 de ago. de 2023
  • 8 min de leitura

Hoje, nós da equipe da coluna Fica de Olho, do Jornal Ponto de Vista, tivemos a honra de ter como nossa primeira entrevistada do Jornal a estimada e adorada professora Thaís. Com ela descobrimos como é a sua vida fora e antes do Colégio Sesi Centro. Veja só como foi essa entrevista inspiradora.


POV: O que te trouxe a ser professora?

Thaís: Na verdade nunca foi o meu foco, o que eu queria mesmo era o jornalismo, mas por uma questão financeira mesmo. Pois a faculdade de jornalismo a uns bons anos atrás era bem cara, e eu tinha que trabalhar durante o dia e não existia jornalismo a noite. Nisso fui incentivada por uma professora minha de língua portuguesa a cursar letras. Sabendo que eu poderia trabalhar em uma redação de jornal também com o curso de letras, e a licenciatura veio no pacote. Eu fiz pensando em trabalhar em redação de jornal, acabou que fui estagiar em uma sala de aula e eu não saí mais, e estou estagiando até hoje. Nunca fui para uma redação de jornal.


POV: Você mudaria sua decisão hoje em dia se surgisse a oportunidade de trabalhar em uma redação de jornal?


Thaís: A Thaís de hoje, acho que não. Acho que não porque hoje eu vejo que eu não conseguiria ficar sentada atrás de um computador o dia inteiro. Acho que por isso não.


POV: O que te motiva a todos os dias entrar na sala de aula?

Thaís: Existe uma coisa que a gente sempre fala entre os professores. Existem coisas que fazem a gente querer desistir? Sim, muitas, mas eu acho que a ideia da gente poder contribuir um pouquinho que seja para modificar a vida de alguém é sempre um fator que não só a mim, mas a qualquer professor, é o maior estimulante. É o fato da gente poder observar que por menor que seja a mudança, seja no comportamento, no olhar crítico, na forma de olhar o mundo. Acho que a partir do momento que meu aluno vira para mim e fala: eu consegui olhar aquilo diferente por conta de uma aula sua, eu acho que é o que mais motiva.

POV: Algo que o Sesi mudou em você?


Thaís: Meu jeito de dar aula, completamente. Eu entrava em sala sempre com aquela coisa, professor tem que ficar lá na frente e o aluno tem que ouvir, ouvir, ouvir e fim. Não pode sequer palpitar, opinar, porque a educação tradicional tem muito disso. Eu fui formada em uma educação assim e eu sempre fui muito questionadora. Talvez por isso que de castigo eu tenha virado professora. Mas eu acho que o jeito que o Sesi ensina e esse tipo de coisa que o Sesi proporciona para vocês, me fez mudar o jeito de enxergar vocês. A gente acaba se aproximando mais.

POV: Tem alguma história de sala de aula que te marcou mais?


Thaís: Tem uma história de antes do Sesi. Eu trabalhava em uma escola de periferia, uma escola que não tinha papel higiênico no banheiro. Muita gente sabe como é a qualidade da educação pública, infelizmente. Eu dava aula em turmas de segundo e terceiro ano neste ano, e tinha um aluno, Everton o nome dele. E as minhas aulas de começo da manhã, nessa época o terceiro ano tinha três aulas de língua portuguesa e as que eram bem no começo da manhã ele não vinha. Nunca vinha. Só as do recreio para frente. Acabou que entrei de PSS para substituir professor, foi bem no começo da minha carreira. Eu fui falar com a pedagoga, olha esse fulano não tem presença nessas aulas, a nota dele tá baixa, não dá pra ele ficar vindo em duas aulas sendo que ele tem cinco. A pedagoga falou, “Olha Thaís, isso foi uma falha nossa, também não te tira um pouco da culpa. O Everton ele é o filho de catadores de papel. O pai dele já é falecido. Só a mãe quem cria os filhos. Ela sai muito cedo com o carrinho de coleta e ele tem que ficar cuidando dos irmãos. Então por isso que ele não vem cedo. Ela sai, faz a coleta. Aí ela volta, para daí poder liberar ele pra escola. Isso por volta das nove e meia da manhã. Daí que ele chega. Ele sai um pouco depois de todos os alunos porque as tias da cantina guardam, elas fazem questão de servir um pouco menos de comidas pros outros pra poder dobrar potinhos de comida pra ele poder levar pra casa para eles almoçarem. Eu fiquei naquela, quem sou eu pra cobrar nota de alguém que tá nessas condições? Foi um tapa na minha cara, aí que eu vi que não, a educação não é só ensinar literatura. Literatura qualquer um aprende no Google. Não é só para isso.


POV: Como separar a vida profissional da vida pessoal?


Thaís: É difícil porque a gente não tem tempo de fazer tudo que a gente tem para fazer só nós momentos que a gente tem para isso. Mas com o passar dos anos principalmente depois que eu fui mãe, eu aprendi a separar. Porque daí existe um outro serzinho que depende de mim, ele tem as necessidades dele e não era justo nem comigo, nem com ele, eu dar tudo isso para os outros e o meu dentro de casa não ter. Então quando o Júlio nasceu, acabou que ele se tornou esse freio e até hoje ele é esse freio. Então acho que a maternidade me fez botar uns freios.


POV: O que você falaria pra Thaís do primeiro dia que você deu uma aula?


Thaís: Eu falaria para ela, “Tem certeza? Ainda dá tempo de voltar”. Era isso que eu falaria. Era isso sem dúvidas.


POV: E a Thaís do primeiro dia de aula no Sesi?


Thaís: Meu primeiro dia de aula no Sesi, ele foi bem peculiar. Porque eu entrei junto com a galera de primeiro ano e era o primeiro dia deles e o meu primeiro dia também. Eu lembro que quem desceu comigo foi uma professora de artes, antiga nossa, e eu perguntei para ela onde ficava a sala 203. Ela disse, “Vamos lá que eu te levo”. Ela passou comigo no corredor e falou assim, “Boa sorte”. Fiquei com uma cara de, Agora o que que eu faço? Eu sabia que era uma metodologia diferente, então eu imaginava encontrar a sala uma bagunça, e quando eu entrei, eles estavam tão quietinhos. Era tudo primeiro ano e foi um choque, porque eu imaginei encontrar um auê e não, foi muito tranquilo e foi uma turma que me acolheu muito bem, éramos todos estranhos ali. Era todo mundo ali querendo a nossa mãe naquele momento. A gente foi crescendo junto e dali passei a manhã inteira com eles, que é aqueles dias que a gente fica a manhã inteira na sala. No outro dia eu fui pro terceiro ano mas aí eu já estava mais confiante, como era a sala do Sesi e eu sempre tive muito apoio da parte pedagógica. Tenho até hoje. Mas o Sesi não me chocou muito nesse sentido porque eu fui muito bem acolhida, muito bem recebida por todo mundo. A galera que entrou em 2014, eles também foram minha primeira turma de paraninfa aqui no Sesi. Eles me escreveram uma carta dizendo, “Já que você entrou com a gente, então agora é você que guia a gente pro mundo lá fora”. Mas o que eu falaria para ela seria que, “Se tivesse medo não precisava ter medo, o Sesi foi um lugar que me deixou muito confortável”.


POV: Se você tivesse que definir a sua vida como professora em uma palavra.


Thaís: Uma aventura, sem dúvida! Não sei se aventura é a melhor palavra, mas ela é surpreendente, isso ela é mesmo. Porque a cada aula você planeja “A” e você acaba tendo que fazer “B”, “C", “D”, porque o “A” jamais iria funcionar naquela circunstância. Muitas vezes o aluno nem percebe que você mudou de ideia no meio do caminho e você age na maior naturalidade, como se nada estivesse acontecendo. Mas a minha trajetória tanto dentro do Sesi, quanto fora, foi bem surpreendente e desafiadora. Até hoje cada aula é uma aula nova. Cada ano é um ano novo.


POV: Você já se viu em algum dos alunos alguma vez?


Thaís: Muitas vezes! Tem horas assim que eu olho o jeito que vocês se portam, necessidades que vocês têm, comportamentos em sala de aula, que eu olho e falo, "Bicho, eu cuspi para cima que agora está caindo na minha testa. Sou eu mesma aqui. É ver a gente fora do corpo da gente". Só que é uma coisa que eu sempre busquei fazer foi, nem sempre não só no ambiente escolar, nem sempre o adolescente tem um acolhimento. Acho que acolhimento não, porque dá a ideia de vamos passar a mão na cabeça, e não é essa a intenção. Não tem alguém com que ele possa dividir aquilo, e ele se sinta confortável para ouvir e ouvir o contrário também. Porque nem sempre eu vou agradar vocês. Muito pelo contrário, eu tenho esse pequeno defeito. Eu vou ser sincera, às vezes, até demais. Só que eu sinto que muitas vezes faltou serem sinceros comigo, e às vezes eu não tive isso, de ter pessoas com as quais eu conseguisse conversar, e hoje eu tento fazer isso principalmente com as minhas meninas. Eu costumo falar das minhas meninas, porque eu sei o quão é difícil é para nós socialmente encontrar alguém que possa dividir. Às vezes é só para falar, só conversar sobre algo. Tá rolando alguma coisa estranha e você quer só dois minutinhos de prosa pra falar sobre aquilo e às vezes na correria, todo mundo passa batido e não me custa nada, é o fator mãe que pesa muito. Tá bom que agora eu tenho quase idade pra ser mãe realmente de alguns de vocês. Mas, mesmo antes que não tinha, é uma questão de confiança.


POV: Você tem consciência que é uma pessoa e professora que os alunos têm muito carinho aqui dentro? Apego, digamos assim. Como você se sente com esse apego dos alunos? Que os alunos têm com você?


Thaís: Se eu falar para você que eu não consigo perceber tudo isso, porque às vezes eu acho que eu sou tão fechada; porque eu tenho um jeito meio fechadão, assim, sabe? não sou de sair mostrando os dentes para qualquer um. De manhã cedo eu sou uma pessoa extremamente mal humorada, é só você perguntar para qualquer um dos meus colegas. Então, assim, às vezes eu não consigo medir esse tamanho. Tanto é que a gente até brinca, entre nós professores, a gente vai ter um negócio e vai precisar de paraninfa é a Thaís e quem? Porque tem sido assim, e para mim não é assim. Eu não consigo ver isso, talvez eu não me deixe acessar tudo isso, sabe? Talvez eu não me sinta, sei lá, merecedora? Talvez seja isso. Por isso eu prefiro, não, não é tudo isso, sabe? Porque eu sei que os meus colegas também têm todo carinho deles por vocês e vocês com eles. Então eu não me sinto maior, mais amada, mais querida, e eu não sei nem como medir isso, na verdade, porque para mim isso é uma coisa natural.


POV: O que você falaria para uma pessoa que está querendo o curso de letras?


Thaís: No ano passado nós aprovamos quatro alunos no curso de Letras. Pela primeira vez um curso que até então não era tão requisitado, todo ano tinha um ou dois tentando, pela primeira vez um curso que é para lecionar, é carro-chefe de todas as disciplinas! Longe de mim desmerecer as disciplinas dos meus colegas, muito pelo contrário, a minha disciplina só acontece porque a deles acontece. Se não, a minha não ia acontecer de jeito algum. A gente ter essa quantidade de alunos querendo cursar Letras tem algum significado. Acho que o fato de nós todos despertarmos isso nos alunos, essa vontade de ser um professor assim. Porque foge do padrão de professor que todo mundo tem. Mas se fosse para eu falar alguma coisa hoje para aqueles que estão pensando, é um caminho sem volta, porque a partir do momento que você entra em uma sala de aula, você não quer mais sair. É aquela coisa do, é difícil? Sim, mas que profissão que não é? Não se deixe enganar por essa coisa de você vai ganhar mal, porque você não vai ganhar mal! Trabalhar pouco ganha mal, trabalhar mal ganha mal, trabalhar bem e trabalhar direito automaticamente você dispensa serviço, que é o que a gente faz. Mas o principal a ser dito é, invista! Vai e não desiste. Não deixe que falem o contrário. Não deixe que nada possa te assustar e fazer você desistir.


Foi uma honra para cada um de nós da coluna Fica de Olho entrevistar a nossa querida professora Thaís Berdusco! Agradecemos imensamente pela disponibilidade da nossa mestra.

Esta foi apenas nossa primeira entrevista. Em breve, outros do corpo docente e colegas do nosso dia a dia também vão aparecer por aqui. Esse foi só o começo, então Fica de Olho!

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